As idéias do poeta e educador Georges Jean sobre a importância do
imaginário na formação integral do educando e suas propostas sobre uma
pedagogia do imaginário instigaram-me mais ainda a aprofundar meus estudos
nessa direção.
O Dictionnaire de Psychologie (1991) define imaginário como o domínio
da imaginação criadora que compõe com representações sensíveis, diferentes
dos objetos reais ou das situações vividas: sonhos, mitos, obras plásticas…
No Grand Dictionnaire de la Psychologie Larousse (1991), encontramos a
definição de imaginação:
Aptidão a formar e ativar imagens mentais na ausência de
qualquer modelo percebido; nesse primeiro sentido, a
imaginação confunde-se com a capacidade de combinar as
imagens em quadros sucessivos. Geralmente distingue-se
imaginação reprodutora, que é a capacidade de reorganizar
em uma nova forma os traços mnésicos relativos aos
acontecimentos findos, e imaginação criadora, que consiste
em uma evolução dos acontecimentos potenciais mas que
jamais foram percebidos pelo sujeito. A atividade imaginária
pode se tornar estritamente mental (sonho) ou pode se
encarnar em produções concretas (invenções, criações
intelectuais ou artísticas).
DURAND (1984) diz sobre o imaginário: É o padrão-ouro da hominização quando se pode dizer:
houve imagem, houve símbolo. O homem transforma o
mundo em imagens. Todo fenômeno humano se apresenta
necessariamente como uma mensagem simbólica. O
imaginário é, portanto, o indicador geral da Ciência do
Homem…
Para MORIN (1973:211),… o imaginário tem sua própria realidade, e o que
chamamos de realidade é sempre embebido de afetividade
e de imaginário; o sujeito tem sempre uma existência
objetiva, mas a objetividade não pode ser concebida senão
por um sujeito. Isto para dizer que não há, de um lado, o
reino da objetividade do real, que se poderia isolar
totalmente da subjetividade e do imaginário, nem, de um
outro, as miragens do imaginário e da subjetividade. Há
oposição entre esses termos, mas eles estão abertos,
inevitavelmente, um ao outro de maneira complexa, isto é,
ao mesmo tempo complementar, concorrencial e
antagonista.
JEAN (1976) fala da imaginação como uma faculdade maior, na medida
em que ela assume e constrói a coerência do ser. Segundo ele, não se pode pensar
em desenvolvimento possível do indivíduo sem que haja desenvolvimento da
imaginação. Imaginação é muito mais que sonho, onirismo, invenção do ainda
inexistente: ela intervém em todos os processos psíquicos e corporais e, antes
de mais nada, na linguagem. Como lembra bem esse autor, Piaget mostrou, em
seus estudos sobre a gênese da inteligência infantil, que uma condição
necessária ao desenvolvimento das faculdades intelectuais é a representação,
que precederia a linguagem verbal. Ter essa consciência dos objetos ausentes no
tempo e no espaço presente em nossa percepção é justamente o que nos permite
uma tomada de distância da realidade concreta e histórica em que vivemos. Dito
de outra forma, estaria aí a capacidade de refletir. A imaginação é, portanto, um
elemento indispensável a qualquer atividade intelectual, uma vez que em sua base
estaria o processo da reflexão.
Em sua obra Pedagogia do imaginário, JEAN nos propõe repensar a
escola que hoje conhecemos — que sacrifica a linguagem metafísica, simbólica, em
prol da linguagem conceitual — já que, na realidade, não há contradição alguma
entre as duas. Caberia ao professor mostrar à criança quando utilizar uma ou
outra. Se reconsiderarmos os projetos pedagógicos e suas finalidades e
reconhecermos os objetivos da educação escolar, levando em conta a
importância do desenvolvimento integral do homem, sem dúvida, não poderemos
negar que a escola tem sistematicamente privilegiado uma ou outra faculdade em detrimento da outra, o que naturalmente se traduz numa fragmentação do
indivíduo. A proposta de uma pedagogia do imaginário é a proposta de cultivar o
indivíduo em sua relação consigo mesmo e com o mundo exterior.
Também nesse enfoque, em que o autor sugere um maior espaço para o
imaginário nos projetos educacionais, a prática do conto tem a sua função bem-
definida: Sem dúvida, convém insistir sobre a função essencial dos
contos. Dos contos contados que não são lidos em voz
alta. […] O contador inventa um outro mundo. Um mundo
de maravilhas, no sentido próprio da palavra. Um mundo
no qual “as bobagens” são justamente as coisas que
contam na vida do dia-a-dia. (JEAN, 1991:97)
Escreve HÉLIAS 6 , citado por JEAN (1991:98), O contador faz surgir suas histórias do nada. Ele as torna
credíveis e como que reais. Esta é a própria definição de
imaginação. Que eles sejam maravilhosos, fantásticos,
quotidianos, de ontem ou de hoje, os contos são
certamente os modelos exemplares de uma pedagogia do
imaginário.
Lateralidade cerebral e pedagogia do imaginário são duas abordagens de
uma mesma questão. Em ambas, o que se pontua é a necessidade de se levar
em conta o indivíduo em sua totalidade. A escola não pode mais se negar a
repensar seu papel no mundo atual em que apenas o indivíduo que esteja de
posse de todas as suas faculdades poderá fazer face aos novos desafios.